© 2019 - Cerveja de Graça para todos nós por favor

  • Facebook!
  • Instagram!
  • Bernardo Couto

Não tem uma cerveja mais normal aí não?

Senta que lá vem história. História da cerveja e sobre cerveja. Tem um causo de uns anos atrás. Evento na rua, sabe como é né?


Desde sempre uso frutas nas cervejas, fiz a Maracujipa em casa em 2011, lancei em 2012, e por aí vai. Já usei aporratoda. Carambola, pitanga, manga, tangerina, limão, amora, framboesa, araticum, coco, coquinho azedo, tamarindo...


Sabe o que é mais louco? Nem inventei esse araticum, ele existe mesmo.


Mas então, a parada é esse. Eu uso fruta. E aí? Nossa, valeu diferentão.


Calma cara, não é isso. Tem fruta na cerveja desde que o mundo é mundo. No Egito, os escravos recebiam cerveja na marmita. Imagina o cara metendo assim:


Ah, mano, eu tô levando umas puta pedra pesada aqui e vocês me vêm com cerveja com fruta? Cê é loco que eu vou beber essas mistura aí. Traz uma puro malte aí.

Pois é, o cara lá bebia de boas com uva, romã... o que tivesse. E você bebe também? Opa, feshow, é nois #gratidão! Mas a verdade é que isso só é assim tranquilão quando a gente fala com os convertidos, como diria a dona patroa. No meio da rua, o buraco é mais embaixo.


Vamos ao causo.


Tem dia que a paciência está lá em cima, né? Parece que ingeriu a aura de um templo budista no café da manhã. Aí você está lá, um ser iluminado, tentando vender sua cervejinha num evento aberto ao público, sem querer ofender ninguém. Tava expondo a minha arte ali. Minha miçanga. 10 horas da manhã e tou lá plugando barril e provando cada torneira para ver se tá tudo bem. Uma-a-uma 10 da manhã todo dia de evento. Porque, né? Sofrência cervejeira.


Mas aí tou eu lá, pleno, mosteiro budista na cabeça e os caraio, com Maracujipa e Caramba plugadas. Lembra da Caramba? Saison com carambola, delicinha. Eu na feira ali, miçanga... Então, aí vem o povo torcendo nariz pras frutas. Como se né nossa-você-zuô-o-rolê-seu-traidor-do-movimento.


- Quais que você tem aí hoje?


- Tem a Maracujipa, uma IPA com maracujá. Tem um leve aroma de maracujá e um final mais amargo. Tem também a Caramba, que é uma saison, um estilo belga mais condimentado, tem leve acidez e é com carambola. Ela em um amargor bem baixo e é feita com trigo.


Meti a carambola ali no meio da explicação para ver se passa batido. Falei por último do amargor baixo e do trigo, por que vai que o cara curte uma Weiss e prova, né? Eram mais 12 conto pra dentro.


- Você não tem uma mais normal não?


Olar.monge.budista.vc.vem sempre.aqui? Respondi lindão:


- O que é cerveja normal para você?


Claro que eu sabia que o cara queria uma pilsi. Mas eu tava com o Platão no quadrante 1.


- Ah, queria uma cerveja-cerveja, mesmo. Sem essas misturas aí.


Maluco... Falou sem-essas-mistura-aí arrepia a minha espinha um tanto, mas um tanto... é tipo pedir sem colarinho.


Eu nem sou pilsenfóbico, até tenho um amigo que bebe pilsen.

Por que pilsi dá na natureza né? Não tem essas-mistura-aí.


Tinha até aquela música do Berreza "meu vizinho jogou um semente de pilsi no meu quintal". Plantei pé de pilsi e de larger. Quando brotar vou fazer minhas cervejas bem puras, não vou misturar nada no fruto virginal da pilsi que dá no meu quintal.


Mas, eu monge budista com Platão no café da manhã, todo trabalhado na filosofia.


- Então, cerveja assim desse jeito, como a gente faz, existe há milhares de anos. As pessoas sempre usaram os ingredientes que tinham, como frutas, especiarias variadas, os grãos que tinham disponíveis, mel... O que tivesse ali na região. Já a cerveja que você está querendo é feita pelo homem há cerca de um século, apenas. Então, qual cerveja é a mais normal na história da humanidade?


Não vendi nada, mas talvez tenha feito o camarada pensar. E eu também, pensei...


Eu pensei. Caraio mano! Gastei toda a paciência que a vida me reservou em 1 minuto.


Brincadeira. Cerveja é cultura, é a história da humanidade. E consumir é escolher qual história você quer que tenhamos para contar adiante, a da monocultura das pilsi ou da diversidade.


Cerveja é arte, é gastronomia, é o que cada um está a fim de beber e de fazer, e sempre foi assim. E poder passar essa reflexão para a frente é fundamental!







389 visualizações2 comentários