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Entrevista | Carlo Lapolli: "Precisamos que as cervejarias acreditem na sua própria associação"

Cervejeiros caseiro desde 2006, Carlo Lapolli é advogado por formação e preside há dois anos a Abracerva, Associação Brasileira da Cerveja Artesanal. Fundada em 2013, a associação reúne cervejarias, ciganas, sommeliers, fornecedores do setor cervejeiro, ponto de vendas e entusiastas no mercado.


Esta é a primeira entrevista do blog, que serão frequentes. Nesta conversa, falamos sobre a Abracerva, tributos, futuro e presente do mercado da cerveja artesanal no Brasil. Para Lapolli, teremos dois anos pra dar uma depuração, ver quem fica e quem sai, como já aconteceu nos EUA. A meta, segundo ele, deve ser sobreviver neste período, que é de retração da economia como um todo, afetando diretamente nosso mercado.



Pergunta - O Simples foi, talvez, a primeira grande bandeira no setor. Como a mudança na regra tributária ajudou o setor, na prática?


Resposta - Sem dúvida que a conquista do Simples para as cervejarias foi um divisor de águas. É importante observar que o pedido inicial era de um limite de 14,4 milhões de faturamento inicial e acabou sendo aprovado somente 4,8 milhões. Essa mudança acabou não abarcando as cervejarias artesanais um pouco maiores. Por outro lado, o Simples acabou permitindo que pequenos negócios, brewpubs principalmente, se tornassem viáveis. Sem o simples, dificilmente uma cervejarias com produção de cinco ou seis mil litros poderia sobreviver. Isso vai impactar, inclusive, no modelo de crescimento que vamos ter daqui para frente.


foto: Bruno Dupon


P: Quais são, hoje, os principais focos da Associação?


R: A Abracerva tem como missão defender as pequenas cervejarias. Trabalhamos diariamente para criar um melhor ambiente de negócios no Brasil. Logicamente, a questão tributária é prioritária, mas não única. A Abracerva trabalha muito em conjunto com o MAPA, por exemplo, para resolver problemas pontuais. Cito, por exemplo, a questão do Growler. Em 2018, houve um problema pontual em SP, quando um fiscal entendeu que um determinado PDV deveria ter registro de envase no Ministério da Agricultura para comercializar cerveja em growler. Agimos junto ao Mapa em Brasília e, no final do ano, acabou saindo uma regulamentação esclarecendo como sendo para pronto consumo, sem necessidade de registro.


No Congresso, acompanhamos diariamente a agenda legislativa da cerveja. Temos algumas matérias propositivas, como a definição de cerveja artesanal, redução de tributos federais, inclusão da Substituição Tributária (ST) no Simples, que acabou ficando de fora em 2015. E temos uma agenda defensiva. Diariamente, ingressam no Congresso propostas que visam demonizar a cerveja e criar vedações de publicidade, restrição de horário e locais de vendas. Temos que ficar atentos a estes projetos que podem prejudicar sobremaneiras as pequenas cervejarias, festivais, etc.


P: E que outras atividades a Abracerva realiza?


R: Vamos para o nosso segundo congresso de Sommeliers, que será em Salvador (BA) em junho, no qual traremos palestras multidisciplinares para os sommeliers e cervejeiros que lá estarão presentes. Em agosto, será a vez de Vitória (ES) receber a segunda Copa Cerveja Brasil, nosso concurso exclusivamente para cervejarias independentes, que será ladeada por um festival de cervejas regionais, uma feira de negócios e congresso técnico. A Abracerva também tem trabalhado de forma descentralizada, criando regionais como no Distrito Federal, Ceará, Espírito Santo, Goiás e, agora, finalizando o processo em Mato Grosso e Bahia.


"Quando vejo falar em bares de cervejas artesanais fechando, eu acho que a colocação é um tanto equivocada, pois bares e restaurantes estão fechando aos montes. Não só de artesanais"

P: Muitas empresas do setor tem reclamado do momento que estamos vivendo, muito em função da retração da economia. Mas, o que você vê como falha do setor, especialmente? E o que pode ser feito para melhorar?


R: Primeiro, eu queria ressaltar que o momento não é negativo para o setor. O momento é negativo para o país. O Brasil vem de uma crise de três anos sem crescimento. Nosso mercado pode ser considerado supérfluo e logicamente vai sofrer juntamente com o restante da economia. Quando vejo falar em bares de cervejas artesanais fechando, eu acho que a colocação é um tanto equivocada, pois bares e restaurantes estão fechando aos montes. Não só de artesanais.


Acredito que o setor ainda passou bem pelos últimos três anos. Registramos um crescimento grande. Mas, ele não é imune à crise e se o país não retomar um crescimento sustentável, nossos negócios vão sofrer como um todo. Quanto às cervejarias propriamente ditas, o número cresceu muito nos últimos dez anos. Se fizermos uma rápida pesquisa, vamos ver que, no Brasil, o índice de mortalidade das empresas é de cerca de 50 a 60% nos primeiros cinco anos. Sem qualquer dúvida, podemos ver num passar de olhos que o índice de mortalidade é menor no setor de cervejarias artesanais. Mas, achar que montar uma cervejaria é tirar um bilhete premiado é um equívoco.


P: Nem só a paixão alimenta esse mercado?


R: O setor sofre dos mesmos males do empreendedorismo no Brasil. Temos um custo operacional alto, carga tributária alta e complicada e controle estatal pesado, logística, complexa, custo de capital. Outro ponto é a capacitação empreendedora. As pessoas precisam entender que não basta só saber fazer uma boa cerveja, é preciso se preparar e estudar os demais aspectos do negócio. Principalmente, planejamento estratégico, marketing, tributário e operacional. E, no outro espectro, não basta ser só um bom empresário, ter dinheiro e querer investir para surfar a onda. Nosso mercado é de nicho e o consumidor quer dialogar com o cervejeiro. Cervejaria só como empresa, sem coração, também não tem como sobreviver.


E, por último, é importante perceber que estamos num mercado dominado por um oligopólio. As duas grandes, Heineken e Ambev, estão fazendo de tudo para mimetizar a cerveja artesanal, se parecer com a gente. Querem criar a confusão na cabeça do consumidor para vender suas falsas artesanais. O brasileiro já descobriu a cerveja artesanal e está mudando o seu paladar. Se há uns anos a cervejinha de milho descia redondo, hoje o que o povo quer é provar cerveja boa de verdade, com sabor, aroma e personalidade. Isso ele só encontra em uma artesanal independente.


P: Ouve-se muito a reclamação de que o brasileiro não tem o espírito associativo, de pensamento coletivo entre as empresas, valorização do consumo local... Todos esses pontos são chave para o sucesso do nosso mercado. Então, como você, liderando a Abracerva, sente essa questão? Existe algum caminho para, de fato, vermos um mercado unido?


R: Acredito que a cerveja artesanal, por si só, já tem um ambiente muito mais colaborativo do que competitivo entre os seus iguais. Isso é um instrumento que já facilita a ação coordenada. Quanto à reclamação de que somos pouco associativistas, creio que é uma verdade que vem mudando. A própria Abracerva saiu de cerca de 20 associados para quase 600 em menos de dois anos. Isso já demonstra que nosso setor é diferenciado. O caminho para manter a união é manter essa coesão. Sabemos que o resultado de uma associação não é imediato, temos que plantar hoje para daqui a cinco ou dez anos colhermos uma fatia maior do nosso share de mercado.


P: O principal espelho para o mercado artesanal é o americano. Para a Abracerva é assim também? Vocês se inspiram na Brewers Association?


R: Lógico que temos que nos inspirar na associação americana. Mas a realidade de mercado dos EUA é bastante diferente da brasileira e, assim, devemos saber medir o que se aplica e não se aplica aqui. Se observarmos mais a fundo, a magnitude da BA, com mais de 5 mil cervejarias associadas e com um orçamento impensável para a nossa realidade atual, também foi fruto de muito trabalho e começou pequeno. Isso nos inspira em pensar que um dia podemos chegar lá.


Atualmente, a BA conta com mais de 60 funcionários. A Abracerva tem somente dois, por enquanto. Mas, uma certeza que existe é que devemos profissionalizar. O atual presidente da BA, Bob Pease, é funcionário há mais de 20 anos da instituição. Aqui, temos que mudar a mentalidade. Como atual presidente, sei das dificuldades de estar dividido entre o trabalho da associação e da cervejaria. A nossa proposta é buscar um mecanismo para que a associação seja tocada no seu dia-a-dia por um presidente profissional e que um board, um conselho, dê as diretrizes gerais. Para isso, ainda precisamos de um pouco mais de musculatura financeira, mas vamos chegar lá em breve.


P: A força financeira é essencial para crescer. O Great American Beer Festival e World Beer Cup imagino serem uma das forças propulsoras do crescimento da BA, e com isso, o dinheiro fica no setor, retornando às cervejarias. Existe algum plano para aumentar o caixa da associação através do concurso, festival?


R: Acredito que sim. Devagar, com a organização dos nossos próprios eventos e concursos, creio que vamos ser mais e mais protagonistas. Para que isso se concretize, precisamos que as cervejarias acreditem na sua própria associação e nos ajudem a organizar e fomentar tais eventos.


P: Para finalizar, alguma previsão sobre o futuro do mercado?


O futuro depende muito das condições do país. Se tivermos um cenário positivo nos próximos 5 anos, podemos dobrar a nossa participação de mercado que, hoje, estimamos é de 2 a 2,7%. O perfil das cervejarias também vai mudar. As pequenas e os brewpubs terão um crescimento grande no número de empresas. Cervejarias artesanais maiores, que competirão em preço com as mainstreams, também se consolidarão.


Outra tendência é a interiorização da cervejarias. Já se pinta um cenário em que teremos cerveja artesanal em todos os rincões do Brasil. Isso será fundamental para ao crescimento sólido da cena cervejeira. A última coisa que gostaria de registrar é que precisamos melhorar sempre, como cervejeiros, como empresários, como associação. Essa é uma tarefa para ser feita em conjunto, um auxiliando o outro. Só assim cresceremos sem traumas.



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