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Entrevista | Tiago Dardeau: "Abrimos a primeira garrafa, fez o tssss e a gente ficou emocionado!"


Tiago Dardeau é do período jurássico da cerveja caseira, como ele se define. Começou a produzir em 2005 sem muita informação nem conhecer sobre a variedade de estilos que existiam pelo mundo, afinal, praticamente não chegava nada aqui. A partir daí, surgiu a Confraria do Marquês, focada na propagação da cultura cervejeira, e que atualmente está a caminho do centésimo curso de produção. Carioca, ele hoje está encantado com o mundo dos queijos (dá uma olhada no projeto atual), que tem uma relação muito parecida com a cerveja. "Não só o produto, que é fruto de fermentação e acompanha a história da humanidade, mas a ideia da revolução queijeira, do queijo artesanal". Na entrevista, contamos um pouco da história da cerveja caseira brasileira, início da Acerva Carioca (a precursora, depois surgindo Acervas em diversos estados do país) e o que está acontecendo no mercado atualmente.


Pergunta - Como surgiu a ideia de fazer cerveja?


Resposta - Tudo começa na relação entre eu, Mauro Nogueira e Pedro Ribeiro. Mauro era meu primo e o Pedro um grande amigo do dele, que morou nos Estados Unidos durante os anos e lá conheceu o movimento homebrew. O Pedro voltou e nos contou sobre esse movimento, sobre um monte de cerveja diferente que ele tinha bebido. O Mauro, um dia, navegando na internet, achou um kit para produção de cerveja. Aí, ele me ligou e falou "tá rolando isso aqui, vamos comprar?" Nós três topamos fazer essa compra do kit para a produção, isso em 2005.


Tiago Dardeau no primeiro curso de produção da Confraria do Marquês, em 2005, ao lado de Pedro Ribeiro


P - E como vocês tinham informação sobre como produzir?


Esse kit que a gente comprou vinha com uma apostila e com os insumos básicos, incluindo um milhozinho e açúcar para a gente fazer a primeira leva.


P - Então teve milho na primeira produção?


Bastante. E açúcar. E um pouco de malte...


P - E você lembra como ficou o resultado final?


O kit chegou, ficamos com a apostila ali grudada, e aí invadimos a cozinha. Fizemos uma mega higienização, passamos álcool nas paredes, usamos luvas... E seguimos rigorosamente o que mandava a apostila. Passando o tempo indicado, engarrafamos. Naquele tempo era só garrafa. E aí marcamos um churrasco para degustar nossa primeira cerveja. Esse momento foi interessante pois nossa grande dúvida era se aquilo ia virar cerveja.


Então abrimos a primeira garrafa, fez o tssss de gás e a gente ficou emocionado. Claro que a gente provou e estava muito esquisito. Muito esquisito. Mais a frente a gente conseguiu avaliar que aquilo estava ruim. Inclusive, por que fizemos a fermentação ao tempo, sem controle, pois a informação era para deixar o balde no cantinho fresco da casa. Mas na hora foi uma grande emoção, pois a gente viu que tinha gás, era douradinha, muito turva... Nossa sensação foi de que era esquisita para caramba, mas era cerveja. E o fato de ter ficado assim foi o motor para a gente estudar mais, pois imaginamos que dava para fazer cerveja boa também.


P - A primeira APA que eu bebi foi feita por mim mesmo, nesse esquema. Eu nem sabia como era para ficar. Saiu tudo, menos uma APA. E vocês tinha notícias de mais alguém fazendo cerveja por aqui?


Neste momento, não tínhamos notícias de ninguém. Ficamos apaixonados pela produção de cerveja e começamos a fazer uma leva atrás da outra. E começamos a buscar muita coisa na internet. Num estudo meu, caí em um fórum argentino, eles já estavam bem avançados. Participei de um fórum, o Somos Cerveceros, e fui super bem recebido. Ali aprendi bastante coisa. Outra coisa importante foi quando conhecemos o Afonso Landini (da A Turma, na época, e que hoje está a frente da Arte Brew). O Mauro tinha um compromisso em São Paulo e marcou com ele. Ele brinca que aprendeu a fazer cerveja de verdade num bate papo com o Afonso no McDonald's em uma rodovia. E na sequencia eu fui fazer o curso do Afonso. Antes, tinha feito o curso do Norberto Herrero, quando conhecemos o Sergio Fraga ( mais a frente ele lançaria a Cervejaria Fraga, que nos últimos anos foi fechada), que já produzia cerveja, também.


Primeiros alunos formados pela Confraria do Marquês, que este ano deve chegar no centésimo curso.


P - Era uma época bem escassa de informação, insumos, equipamentos e, até mesmo, referências. Como vocês faziam para evoluir na produção?


A gente começou a produzir mas nunca tinha bebido algo diferente. Lembro de ter bebido uma Weiss que meu pai trouxe de uma viagem à Alemanha. O Mauro deve ter tido uma ou duas experiências assim. Só o Pedro é que conhecia mais. Eu não sabia o que era uma APA, uma IPA, uma Stout, uma Brown... A gente comprava os insumos direto do Afonso Landini, e a gente inventava. Era uma época de muito estilo livre, o que foi um grande aprendizado. A gente foi tendo o feeling de colocar 10% de malte tostado aqui, 15% ali. Fomos entendendo mais sobre as proporções dos maltes, anotando tudo numa folha de papel. Eram poucas opções de fermento, então usamos o S-04 direto.



P - Nessa época, NEIPA era quando o fermento não decantava de jeito nenhum?


NEIPA? O que é isso, uma sigla do governo? :)


P - E como foi a evolução de vocês? Foram surgindo os cursos...


Tivemos cerca de um ano de estudo, e fizemos o nosso curso de produção de cerveja caseira no final de 2005. Um dia, no fórum argentino, vi uma foto de vários cervejeiros trocando suas criações numa mesa de bar e fiquei encantado com isso. Esse é o nosso sonho máximo, poder trocar experiências com outras pessoas. E a gente não achava ninguém no Rio de Janeiro. Então, vimos que só tinha um jeito, começar a dar curso. A gente já achava que tinha a experiência necessária e aí montamos nosso primeiro curso em outubro de 2005. Com essa galera da turma inaugural, criamos um grupo para conversar, fazer compra coletiva de malte. Após a segunda turma, que teve o Leonardo Botto, fizemos um churrasco juntando todos os alunos, das duas edições. De fora tinha o Sergio Fraga, e nesse meio tempo encontramos o Ricardo Rosa, a única pessoa que a gente achou pela internet e que fazia cerveja antes da gente começar, inclusive. Esse churrasco foi o primeiro Encontro dos Cervejeiros Caseiros Cariocas, o famoso ECCC, organizado pela Confraria do Marquês, e que seria o berço da Acerva Carioca. Foram vários encontros destes até, de fato, fundar a associação.



P - Dessa meia dúzia, o universo de cervejeiros caseiros cresceu exponencialmente, atingindo hoje milhares de pessoas por todo o estado e pelo país. Como você vê o papel da Confraria do Marquês neste cenário? Todo esse crescimento era algo que vocês vislumbravam?


A gente sempre quis se colocar no mercado como uma escola cervejeira para iniciantes. Realmente, tudo que aconteceu superou enormemente as nossas expectativas. A gente atingiu um volume de pessoas absurdo, que não imaginávamos. A gente tem muito orgulho de entender que a Confraria foi a semente para o nascimento da Acerva. Naquele momento, a Acerva era fundamental para que o pessoal pudesse trocar ideia e continuar se encontrando. A gente sempre dizia que não tinha interesse de fazer um curso avançado, a gente achava que esse curso seria a vivência na Acerva.


P - E como você vê o mercado hoje?


Não podemos negar que o cenário hoje é muito positivo. Mas, como todo processo de consolidação, ele vai passar por altos e baixos, por filtragem. A gente já viu muitos dos caseiros se tornando ciganos, alugando o espaço em uma fábrica. Depois, vimos outros tendo sua casinha própria. Estamos passando por uma fase de vários colocarem um bar na rua. Então, isso mostra um processo de crescimento. O mercado cresce, mas, por outro lado, se torna mais desafiador para quem não está estruturado. Existe um grupo seleto que permanece e se consolida, e um de aventureiros que entra e sai, entra e sai.


Também vejo uma loucura saudável na variedade de estilos, com muita invenção. Eu acho que é natural e positivo. Vejo muita crítica em relação a isso, um certo julgamento soberbo, mas é do jogo. Eu não acho que num futuro próprio a gente vá ter essa infinidade de invenções, mas faz parte do processo. Claro que muita coisa acaba não dando certo, e outros que caem no gosto e permanecem.


"Se aventurar no mercado com uma marca própria é um grande desafio, independe da época. Não é a toa que muita gente que começou com pouca grana ou sem planejamento ficou pelo caminho"

P - Muitos dos cervejeiros caseiros lá do início não entraram de cabeça nesse mercado, profissionalmente. Por que isso aconteceu?


Tem uma resposta simples, que nem sempre convence ou agrada às pessoas. Se aventurar no mercado com uma marca própria é um grande desafio, independe da época. Não é a toa que muita gente que começou com pouca grana ou sem planejamento ficou pelo caminho. Por que uma galera lá do início não vingou? É por isso mesmo. Criar uma marca de cerveja é um investimento forte em todos os sentidos. Dos que começaram, muitos nem queriam empreender, e outros não tinham estrutura. É um modelo de negócio caro. São raros os que conseguiram construir uma marca sem um investimento forte financeiro. Não é fácil. Aventureiros já entraram e caíram.


Mauro Nogueira, em primeiro plano, transmitindo a cultura cervejeira.

P - E voltando a falar de cerveja caseira. Como você vê o futuro dela como apenas um hobby?


É impressionante. Eu encontro pessoas de universos que não tem nada a ver com cerveja e, invariavelmente, alguém fala que tem um fulano que ele conhece que faz cerveja, que a própria pessoa já fez uma brassagem. É muito doido para a gente que é jurássico ouvir as pessoas chegando da mesma maneira que chegaram em 2007, 2008... "O cara se encantou e comprou um kit, fez um curso..." A impressão que eu tenho é que o hobby está fortíssimo e vai continuar assim. A brincadeira ficou muito mais fácil. Se a gente vai conseguir criar associações tão fortes quanto as americanos, que são referências, eu não posso dizer. Aqui a cultura do associativismo não é tão forte, muita gente vai por conta própria. Agora, ouvir que a pessoa faz cerveja, o primo faz cerveja, o cunhado fazer cerveja... Isso é muito maneiro, é o mais legal da brincadeira.




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